Hoje, caríssimos irmãos e irmãos, damos uma pausa nas reflexões acerca das obras de misericórdias. Neste hoje, vamos lançar o olhar sobre nossas famílias que devem ser a casa da misericórdia. E como nossa sociedade carece de famílias que sejam verdadeiros santuários da misericórdia divina.

No santo Natal, a Igreja contempla o mistério da Sagrada Família de Nazaré. Mistério, sim! Vejamos senão: o Filho eterno, ao assumir nossa condição humana, encarnou-se e nasceu, viveu e cresceu no seio de uma família humana. Para a fé cristã, este fato reveste-se de uma significação enorme: ao assumir a família, ao entrar nela e nela humanizar-se, aprendendo a ser gente, o nosso Deus e Salvador, Jesus Cristo, santificou a família humana. Já no princípio, quando Deus, na sua sabedoria infinita, viu não ser bom que o homem estivesse só e deu-lhe a mulher por companheira, determinando que os dois fossem uma só carne, desde então, a família é sagrada. Isso mesmo: Deus pensou no ser humano nascendo e sendo formado no seio de uma família. E compreendamos bem família: um homem e uma mulher gerando e educando filhos no amor! Uma família, do ponto de vista de Deus, é isso; nem mais nem menos! Pois bem: a família, sonhada e instituída por Deus, foi definitivamente abençoada e levada à plena sacralidade pelo Filho eterno quando, fazendo-se homem, santificou e consagrou a vida familiar.

Eis por que, para os cristãos, a família é sagrada: nasce do sacramento do Matrimônio, no qual o marido e a esposa recebem a graça de viverem como sinal da aliança de amor. Nascida do matrimônio, a família vai crescendo pela fecundidade do amor humano, consagrado nas águas do Batismo de cada novo membro que nasce; e vai alimentando-se não somente da comida e da bebida da mesa de cada dia, mas, sobretudo, do pão e do vinho, Corpo e Sangue do Senhor, dado e recebido na Eucaristia. Estejamos atentos a este fato importantíssimo! A família não é uma realidade simplesmente humana, sociológica! A família é sagrada: querida por Deus, amada por Deus, criada por Deus, sustentada por Deus! Quem destrói a família peca gravemente contra Deus! E mais ainda: a família como Deus a pensou, repitamos para que não haja dúvida, é composta nuclearmente por um esposo, uma esposa e os filhos! Os cristãos não poderão nunca pensar em outros modelos de convivência como sendo uma família nos moldes desejados por Deus!

Deus desde toda a eternidade quis habitar entre nós. Para ele Salomão construiu um suntuoso Templo, uma habitação, uma casa, onde todos pudessem lhe encontrar. Mas o verdadeiro santuário de Deus é o coração humano. É aí , bem no teu coração que ele deseja habitar. Com o matrimonio, com o sim que é dado um ao outro, o casal realiza o sonho de Deus. O casal dão o sim, não só entre si, entre duas pessoas, mas é um sim entre três pessoas: O casal e Deus. Por isso Deus habita o matrimonio. O casal deve abrir as portas de sua casa para Deus habitar. Eu não acredito num matrimônio sem Deus.

Assim, entendam que a família é o santuário da habitação de Deus, tudo oq eu é sagrado deus habita. Sua família é lugar santo. Sua família é sagrada. Pois nela Deus habita. Daí entendemos a expressão de Josué: “Eu e minha casa serviremos ao Senhor.” Percebam que aqui casa não se refere a construção, ao edifício onde moramos, mas a família. Logo a casa é a família, é o pai, a mãe, os filhos. Logo podemos dizer, como dizemos quando vamos a Igreja: vou servir ao Senhor em sua casa, diga também, eu e minha família serviremos ao Senhor, porque assim como Deus habitar este templo, ele habita, pelo teu sim, tua casa, tua família.

Esta família, se é cristã, é a primeira imagem da Igreja, é a primeira comunidade de cristãos. Pensemos bem na sublimidade de tal mistério: o pai, a mãe e os filhos, todos batizados em Cristo Jesus, são uma pequena Igreja, a Igreja doméstica! A esta comunidade familiar, São Paulo dirige, palavras comoventes, conselhos e exortações insuperáveis. Pensando na nossa família, e a família como casa da misericórdia, escutemos: “Vós sois amados de Deus, sois seus santos eleitos. Por isso, revesti-vos de sincera misericórdia, bondade, humildade, mansidão e paciência, suportando-vos uns aos outros e perdoando-vos mutuamente, se um tiver queixa contra o outro. Sobretudo, amai-vos uns aos outros, pois o amor é o vínculo da perfeição. Que a paz de Cristo reine em vossos corações. E sede agradecidos! Que a palavra de Cristo habite em vós! Tudo que fizerdes, em palavras ou obras, seja feito em nome do Senhor Jesus Cristo. Esposas, sede solícitas para com vossos maridos, como convém, no Senhor. Maridos, amai vossas esposas e não sejais grosseiros com elas. Filhos, obedecei em tudo aos vossos pais. Pais, não intimideis vossos filhos, para que eles não desanimem”. Vede, irmãos, o que é uma família cristã: uma pequena comunidade de irmãos no Senhor, um pequeno sinal do Reino de Deus, uma outra família de Nazaré! Um lugar de misericórdia. A família cristã é o primeiro lugar da misericórdia, de experiência de amor ao Senhor e aos outros, é o primeiro lugar de oração comunitária e de santificação. A família é santa, a família é sagrada, o lar é um santuário!

Aí é que entra a família, como “primeira escola da misericórdia”. Perguntaram ao Papa Francisco como se pode ensinar a misericórdia às crianças, o papa destaca que, além de habituá-las às histórias e parábolas do Evangelho, é necessário possibilitar que elas experimentem a misericórdia. “A família é o hospital mais próximo: quando alguém está doente é ali que encontra a cura. A família é a primeira escola das crianças, é o ponto de referência imprescindível para os jovens, é o melhor lar para os idosos. Acrescento que a família é também a primeira escola da misericórdia, porque ali se é amado e se aprende a amar, se é perdoado e aprende-se a perdoar.” Vocês pais estão vivendo tudo isso em seus lares? Ou em suas casas só tem violência, agressões verbais as esposas e aos filhos? A falta de caridade de um com o outro? Vocês irmãos estão se ajudando mutuamente, estão se perdoando? Pais vocês estão ensinando seus filhos a respeitarem os idosos e a serem cordiais nas ruas com os pobres, tratando-os bem?

Caríssimos, lutemos por nossas famílias para que elas sejam misericordiosas! Jovens, preparai-vos com responsabilidade para uma vida de família! Que a família não nasça das gravidezes precoces, das relações pecaminosas fora do casamento! Que a família não seja enfraquecida pelo materialismo que enche a casa de bens e a esvazia de amor, de convivência e de diálogo, de misericórdia. Que os pais não deleguem a estranhos a educação humana e religiosa de seus filhos! Pais cristãos, que vossos filhos aprendam convosco a rezar e a viver! Estejamos bem conscientes: não há esperança para o mundo quando se destrói a família; não há futuro para a Igreja se perde a noção da sacralidade de nossos lares! É na família que se aprende a rezar, a amar, a dialogar, perdoar e conviver. É com o leite materno e o abraço paterno que devemos aprender a santa fé católica que o Senhor nos concedeu.

Voltemos nosso olhar e nosso coração para a família de Nazaré. Família de Nazaré, tão igual a nossa, tão diferente da nossa! Santo Carpinteiro José, velai pelos esposos: que sejam fortes e suaves, que sejam responsáveis e fiéis, que sejam piedosos e cheios de doçura paterna, que sejam presentes ao lar e à educação de seus filhos, que sejam pais misericordiosos quando seus filhos errarem. Santíssima Virgem Maria, olhai para as mães: que sejam defensoras da vida, que nunca percam de vista a dignidade imensa da maternidade! Que nem o trabalho nem o sucesso profissional as façam perder de vista a prioridade e santidade de sua vocação materna e a necessidade de aquecer o lar e os filhos com seu amor e sua presença. Senhor Jesus, Menino nascido para ser nossa paz, velai pelos filhos, velai pelas crianças e não permitais que a vida humana seja assassinada pelo aborto e pelas experiências sacrílegas com embriões humanos! Que os filhos cresçam como tu cresceste: no calor de um pai e de uma mãe, no aconchego de um lar, na piedade da oração familiar e da simplicidade das lutas de cada dia! E que possamos louvar-te eternamente, um dia, por nossa família ser misericordiosa, com José e Maria de Nazaré. Amém.

Homilia do Frei José Leandro de Alencar, pregador da Festa em honra a Nossa Senhora do Carmo, Padroeira da Diocese de Parintins