Confira a pregação do Frei José Leandro de Alencar no sétimo dia da Novena de Nossa Senhora do Carmo:

Caríssimo Pe. Rui, minha saudação cordial no sacerdócio que nos une. Seminaristas, querido povo de Deus.

A obra de misericórdia corporal: Visitar os enfermos convida a estar presente junto aos doentes e idosos, tanto na assistência física, quanto lhes proporcionando um pouco de companhia. Nas Sagradas Escrituras, podemos ler: “Eu era os olhos do cego e servia de pés para o coxo” (Jó 29, 15). Muitas vezes o enfermo necessitará dos pés e das mãos dos outros e também do afeto, ternura e compreensão.  O melhor exemplo da Sagrada Escritura é o da parábola do Bom Samaritano que curou o ferido e, ao não poder continuar a cuidar dele diretamente, confiou os cuidados que necessitava a outro em troca de pagamento (Lc 10, 30-37).

No dia em que sua mãe a repreendeu por manter em casa pobres e doentes, Santa Rosa de Lima lhe replicou: “Quando servimos aos pobres e doentes, servimos a Jesus. Não nos devemos cansar de ajudar o próximo, porque neles é a Jesus que servimos.”

É preciso superar a dificuldade de enxergar o invisível. O doente e o idoso transformam-se misteriosamente, por desígnio divino, em ícone de Jesus crucificado. Dizia Santa Faustina: “Naquele que sofre devemos ver Jesus crucificado, e não um parasita ou um peso.” Isto também se aplica para as famílias. Os doentes, idosos e sofredores que em nossas casas, e sabem submeter sua indigência a Deus, atraem para toda a família muitas graças de conversão e libertação. Eis um bom motivo para cuidar bem deles.

“…estava na prisão e viestes a mim…” (Mt 25,36). Os encarcerados necessitam que os outros venham até eles, porém, quão poucos se encorajam a visitar o preso. Há medo, indiferença, preconceito, estruturas de segurança embaraçosas, e além de tudo parece uma atitude sem importância. Mas que significa visitar o preso?

“… estava na prisão e viestes a mim”. Quem visita um preso, visita Jesus prisioneiro dos homens por causa dos nossos pecados. (Jo 18) Sim, Jesus foi privado da liberdade desde o horto das oliveiras, até sua morte de Cruz, a liberdade de Cristo foi retomada somente depois da Sua morte. Quantos presos se encontram na mesma situação de Jesus, com penas altíssimas, com prisão perpétua, sem nenhuma perspectiva de futuro e liberdade. Lembremo-nos que Jesus assumiu também o delito destes presos e que, nossa parte é levar este conhecimento até eles.  Disse o Papa Francisco: “Confesso que muitas vezes penso… nas pessoas que vivem nas prisões.”  Dificilmente em uma de suas viagens apostólicas o Papa deixa de visitar uma prisão, certamente é uma tentativa do Papa, para que seja transformada a mentalidade dos cristãos em relação aos encarcerados.

 A evangelização do preso sem dúvida alguma pode transformá-lo e libertá-lo, não os livrando das grades externas, mas das grades internas, de seus corações. “Na história da Igreja, muitos chegaram à santidade através de experiências duras e difíceis, abram a porta de seu coração a Cristo e será Ele a reverter a sua situação“. Para que um preso abra a porta a Cristo, é preciso que Cristo seja levado até ele.

As mensagens de encorajamento do Santo Padre aos presos nos chamam a buscar a transformação de nossa mentalidade em relação aos irmãos e irmãs privados da liberdade. A obra de misericórdia exige a visita, a presença, o calor humano que somente outro humano pode dar a quem está no ‘gelo’ da reclusão, da solidão, do abandono e da indiferença. Todo cristão é convidado, a pelo menos uma vez na vida visitar uma prisão, e assim, compartilhar da dor daqueles que ali se encontram.

Outro aspecto desta obra de misericórdia é a família do preso. Visitar a família é indiretamente visitar o detento, a família também se torna prisioneira do preconceito, da indiferença, do medo… Os pais, as esposas e os filhos além de sofrerem pelo motivo que causou a prisão do familiar, sofrem diretamente com as consequências de seus delitos. Quantas esposas e filhos passam fome, são desalojados, perdem emprego… Façamos como o Papa, pensemos neles, rezemos por eles, façamos uma visita e o tudo que está ao nosso alcance.

Perdoar

Jesus Cristo ressuscitado, que se manifesta aos discípulos mostrando as feridas da crucifixão e dando aos discípulos o Espírito Santo que lhes permitirá perdoar os pecados (Jo 20, 19-23), revela que perdoar significa fazer do mal recebido uma ocasião de dom. No perdão não se trata de suavizar a responsabilidade de quem cometeu o mal: o perdão perdoa, precisamente, aquilo que não é desculpável, aquilo que é injustificável — o mal cometido e que permanece como tal, assim como permanecem as cicatrizes do mal infligido.

A história da revelação bíblica também é a história da revelação do Deus “capaz de perdão”, afirmação que implicará a superação da Lei de Talião: “Olho por olho, dente por dente”, Jesus porém nos diz: “Não vos vingueis de quem vos fez o mal… amai vosso inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem… pois se amais os vossos amigos que recompensa tereis?

Não se pode negar que o amor aos inimigos, de um ponto de vista humano, é seguramente a prescrição mais exigente de Jesus, sendo considerada desde a antiguidade como sinal distintivo da vida e da conduta cristã. “Nisto conhecerão que todos sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros”. É um mandamento que expressa a novidade do cristianismo, já que “quem não ama o quem o odeia, não é cristão”, diz são Clemente. Para São Tomás de Aquino, o perdão dos inimigos “pertence à perfeição da caridade”.

Esta obra está manifesta de forma sublime na oração dominical do Senhor: “perdoai-nos as nossas ofensas  como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”.  Estas palavras tem sido rezadas com o coração? Como um apelo a conversaõ?

A partir do perdão, a comunidade cristã é chamada a ser o lugar do perdão: “Perdoai-vos mutuamente, como também Deus vos perdoou em Cristo” (Ef 4, 32). E a oração quotidiana do cristão, fazendo eco das palavras de Ben Sirac (28, 2: “Perdoa ao teu próximo o mal que te fez, e os teus pecados, se o pedires na tua oração, serão perdoados”), estabelece uma relação entre o pedido do perdão divino e a prática do perdão ao irmão (Mt 6, 12; Lucas 11, 4). No perdão, o mal não tem a última palavra: a morte não vence a vida, e a reconciliação pode substituir o fim da relação. O perdão faz-nos entrar na dinâmica pascal. É fundamental para o cristão descobrir que foi perdoado por Deus em Jesus Cristo, e isso fará com que o ato do perdão dado não seja tanto (ou apenas) um ato de vontade, mas a abertura ao dom da graça do Senhor. O perdão, portanto, depois de concedido, pode reabrir a relação, dando lugar à reconciliação.

Neste contexto jubilar, ano Santo da Misericórdia, aqui tem importância decisiva o sacramento da penitência ou da Reconciliação. O desejo do Papa é “pôr novamente no centro o sacramento da Reconciliação, que será para cada penitente, fonte de verdadeira misericórdia. Não me  cansarei jamais de insistir com os confessores para que sejam um verdadeiro sinal da misericórdia do Pai.”

Por sua vez, seria conveniente recuperar, pelo seu real valor como introdução à Eucaristia e como expressão concreta da condição pecadora da comunidade cristã, a preparação penitencial presente nos ritos iniciais da Eucaristia, quando o povo de Deus se dirige ao seu senhor reconhecendo-se pecador e preparando-se para acolher o dom de Deus.

Que o Senhor, que é misericórdia, nos impulsione com sua graça a realizamos visitas aos doentes e presos em seu nome e em sua pessoa e, que ao recebermos de Deus o perdão e o de Jesus na cruz, saibamos testemunhar as palavras do Pai nosso: assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido. Maria Mãe da misericórdia e nossa mãe, ajude-nos hoje e sempre nesta bela missão. Amém.

Homilia do Frei José Leandro de Alencar, pregador da Festa de Nossa Senhora do Carmo, no sétimo dia do novenário.