Em Maria, se revela o rosto da misericórdia! Este foi o tema da quarta noite do novenário em honra a Nossa Senhora do Carmo, Padroeira da Diocese de Parintins. Confira a homilia na íntegra:

Revmo. Padre Rui, demais sacerdotes, diácono, seminaristas, fiéis e devotos da Virgem flor do Carmelo, salve Maria nossa Padroeira.

Hoje, é dia de festa, é dia do Senhor, dia de nos reunirmos na casa de Deus e juntos louvarmos a uma só voz e com numa só fé, a nossa excelsa padroeira e aclamá-la mãe de misericórdia.

Um fato importante da história do Carmelo. Nós surgimos no monte Carmelo, na palestina, daí surge o nome e a devoção a Nossa Senhora do Carmo. Neste monte habitamos nos primeiros anos da nossa fundação, por volta de 1192. Lá construímos conventos. Os frades viviam em solidão e em meditação dia e noite na lei do Senhor como diz nossa Regra. É um costume nos nosso conventos as quartas-feiras e sábados, a nossa última oração ser dirigida a nossa Senhora. Uma certa noite no convento no monte Carmelo, os frades rezavam as completas, última oração do dia, e encerravam a oração cantando a Salve Regina, Salve Rainha, quando os Mulçumanos invadiram nosso convento e começaram a decapitar os frades um a um a fio da espada. Este martírio era embalado ao som da Salve Rainha repetidas vezes, de forma que o último frade a ser martirizado, este entoava a seguinte parte: mater misericordiae – ou seja, Mãe de misericórdia.

Outro fato importante, é a da primeira imagem de Nossa Senhora do Carmo venerada pelos carmelitas no Monte Carmelo. Ela é um ícone, uma pintura sagrada, chamada La Bruna, ou seja, a moreninha, ou a mãe da ternura. Esta é a Imagem, a primeira venerada pelos Carmelitas. Vejam comigo os detalhes desta Pintura. (Projetar a Imagem).

Ícone Maria “La Bruna” ( nossa morena) é a mais antiga imagem mariana adotada pelos Carmelitas (ícone do carmelo), e originária provavelmente do Monte Carmelo. Sua representação foi concebida para nos comunicar os valores da vida de Maria e portanto, para ajudar-nos a caminhar para Deus, com e como Maria. São detalhes interessantes na simbologia mariana do ícone. 1.A cor dourada (lembrando o sol) das aureolas e do fundo indica a santidade de Maria, coração sempre revestido de Deus.

1.A cor azul marinho (cor do mar, da fertilidade) do manto proclama a Maternidade Divina de Maria.

1.A cor vermelha (símbolo do amor) da túnica, cuja parte cobre o Menino, indica o forte amor da Mãe para com o seu filho Jesus.

1.A estrela (adorno) no manto de Maria é sinal de sua virgindade antes, durante e depois do parto: mulher de coração indiviso para Deus.

1.A cor da manga do Menino (pele de ovelha) nos está a indicar: eis aí o Cordeiro de Deus.

1.O rosto do Menino, com idade indefinida, comunica algo profundo: este é o Verbo eterno do Pai que se fez homem.

1.A mão esquerda de Maria segura o Filho no colo, sinal de ternura. A mão direita, responde à nossa súplica: “mostrai-nos Jesus, bendito fruto…”, indicando-nos: “Eis o caminho, a verdade e a vida”.

1.A posição do Menino, rosto colado ao da Mãe, é clara demonstração da recíproca ternura dos dois.

1.Os olhos de Maria e de Jesus são voltados para nós, exprimindo a missão redentora de Jesus e a participação corredentora de Maria.

Toda a composição do ícone acima, do tipo iconográfico da eleusa (ternura), fala ao cristão, e ao Carmelita, da realidade da Virgem Mãe de Deus no mistério de Cristo e da Igreja e é convite à nossa intimidade, familiaridade e imitação de Maria. O ícone recebeu a coroa de outro por Decreto do Capítulo do Vaticano a 11/06/1875. O Santuário do Carmo onde é venerada desde o século XIII fica em Nápoles (Itália).

Outro fato histórico que revela a misericórdia de Deus, que Maria revela, por meio da história e da tradição da Ordem do Carmo, é a aparição de Nossa Senhora do Carmo, quando naquela noite de 16 de julho de 1251, a mãe que vem do céu lhe entrega o escapulário. O escapulário é sinal da misericórdia de Deus. É a veste de Nossa Senhora e quem o usa, reveste-se dos sentimentos da Mãe, reveste-se da misericórdia de Deus que se manifesta no escapulário por Nossa Senhora.

Recordando estes três fatos da história da Ordem do Carmo, faço-os perceber que a ordem do Carmo sempre viu em Maria a revelação da Misericórdia de Deus.

Quem Maria revela? Quem é esta misericórdia que Maria revela? Porque ela é a mãe da Misericórdia? Já sabemos as respostas. Mas vale a pena recordar. Com o seu Sim, Maria aceitou revelar Deus com um rosto, aceitou revelar Deus num corpo, com num coração. A misericórdia que Maria revela é Jesus. A misericórdia que Maria revela tem um nome, é Jesus. Esta misericórdia tem mãos que levanta os caídos, prostrados pelo pecado. A misericórdia que Maria revela tem um olhar de misericórdia que toca a todos e envolve a todos e nos faz apaixonar por Jesus. A misericórdia que Maria nos revela, cura os enfermos. Maria aponta para Cristo. Maria nos conduz para Cristo, Maria nos revela a Misericórdia de Deus que é Jesus.

Neste Ano Santo, para podermos todos nós redescobrir a alegria da ternura de Deus, ninguém, como Maria, conheceu a profundidade do mistério de Deus feito homem. Na sua vida, tudo foi plasmado pela presença da misericórdia feita carne. Maria conviveu com a Misericórdia. Maria foi sendo instruída pela misericórdia como a primeira e a mais perfeita discípula de seu filho.

Na oração da Salve Rainha é dirigida a invocação: “illos tuos misericordes oculos ad nos converte”, que quer dizer: “esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei”. Esta maternidade misericordiosa da Virgem Maria tem dois sentidos. Primeiramente, “ela foi a porta através da qual a misericórdia de Deus, com Jesus, entrou no mundo, e agora é a porta por meio da qual nós entramos na misericórdia de Deus, nos apresentamos diante do ‘trono da misericórdia’ que é a Trindade”

Ser Mãe da misericórdia ou revelar esta misericórdia é apenas um dos aspectos da relação entre a Virgem Maria e a misericórdia de Deus. A Mãe de Jesus não é somente canal e mediadora da misericórdia de Deus, mas é também o objeto e a primeira destinatária da misericórdia. A Mãe de Deus “não é só aquela que nos obtém misericórdia, mas também aquela que obteve, primeiramente e mais do que todos, misericórdia. Na encarnação, a misericórdia faz morada no ventre de Maria. No seu sim, ela, ali, já experimenta, vive a misericórdia de Deus e vai revelar esta misericórdia a Isabel, por isso a criança estremece no seu ventre. O seu cântico de louvor, no magnificat, no limiar da casa de Isabel, revelou que a misericórdia de Deus se estende “de geração em geração” (Lc 1, 50). Também nós estávamos presentes naquelas palavras proféticas da Virgem Maria. Somos a geração que a misericórdia de Deus foi estendida.

Maria meditava e guardava tudo no coração. Guardou, no seu coração, não só a palavra, mas a misericórdia divina em perfeita sintonia com o seu Filho Jesus.

Ao pé da cruz, Maria, juntamente com João, o discípulo do amor, é testemunha das palavras de perdão que saem dos lábios de Jesus. O perdão supremo oferecido a quem O crucificou, mostra-nos até onde pode chegar a misericórdia de Deus.

A virtude da misericórdia é própria dos seres fortes e bons, capazes realmente de prestar socorro. A Santíssima Virgem nos faz compreender que Deus por pura misericórdia nos dá muitas vezes além do necessário do que seria de justiça nos conceder; nos mostra que ele nos dá muitas vezes além dos nossos mérito, como por exemplo, a graça da comunhão que não é merecida. Ela nos faz perceber que a misericórdia se une a justiça nas penas dessa vida, que são como um remédio para nos curar, nos corrigir se nos trazer de volta para o bem.

Maria se mostra como Mãe de misericórdia no que diz respeito à “saúde os enfermos, refugio dos pecadores, consoladora dos aflitos, socorro dos cristãos”. Essa gradação exprimida na ladainha, é muito bonita; Mostra que Maria exerce a misericórdia em relação aqueles que sofrem em seus corpos para curar a alma, e que em seguida os consola nas aflições e os fortifica no meio das dificuldade que têm para superar.

Maria atesta que a misericórdia do Filho de Deus não conhece limites e alcança a todos, sem excluir ninguém. Dirijamos-Lhe a oração, antiga e sempre nova, da Salve Rainha, pedindo-Lhe que nunca se canse de volver para nós os seus olhos misericordiosos e nos faça dignos de contemplar o rosto da misericórdia, seu Filho Jesus.

Homilia do Frei Leandro de Alencar, pregador do novenário da Festa de Nossa Senhora do Carmo.