No último dia 07 de setembro, dia da Pátria e da proclamação da Independência do Brasil, a Diocese de Parintins lembrou os 19 anos do falecimento do seu terceiro Bispo, Dom Gino Malvestio. Pastor Diocesano que, sendo devoto de Nossa Senhora, escolheu para seu lema: Em nome de Maria.

sagracao-de-dom-gino

Sagração Episcopal de Dom Gino Malvestio

Foi, sem dúvida, sob a insígnia deste nome, que Dom Gino desenvolveu seu ministério episcopal nos três anos e seis meses que esteve à frente da Diocese. Aliás, foi caminhando junto de Maria, no dia 16 de julho de 1997, celebrando-a como Nossa Senhora do Carmo, que o Pastor diocesano se despediu do rebanho que lhe foi confiado, guiando-o pela última vez pelas ruas da Ilha Tupinambarana na procissão em homenagem à Mãe de Deus.
No olhar do pastor o rebanho via a palidez e o cansaço. Mas via principalmente o testemunho silencioso de quem se decidiu por servir a Cristo até o fim. Via a altivez de quem sempre preferiu ficar ao lado dos pobres e doou-se por completo nesta empreitada.
Em um artigo escrito logo após seu falecimento, o reverendíssimo Padre Sóssio Pezzela o caracteriza como um “Mestre”, que sempre esteve pronto a promover a caridade, a humildade e a simplicidade de vida. Escreveu o padre Sóssio:
ASSIM MORRE UM BISPO
O Canon 357 do Código de Direito Canônico, falando dos Bispos, afirma: “Os Bispos, que por divina instituição, sucedem aos apóstolos, são constituídos pelo Espírito que lhes foi confiado, pastores da Igreja, a fim de que sejam também “Mestres” da doutrina…”
O Bispo é essencialmente um “mestre”, mas não por motivo de orgulho, e sim pela consciência de representar unicamente Aquele que disse: Não permitais que vos chamem ‘Rabi’, pois um só é o vosso Mestre e todos vós sois irmãos” (Mt 23, 8).
Tratava-se, pois de um magistério enraizado na caridade, na humildade e na simplicidade de vida (cânon 387).
Fica sempre perigoso e… fácil só pregar aos outros, exortar os outros, ser capaz de aguentar as dores dos outro! Cristo não se limitou a ensinar “seja feita a Vossa vontade…”, nem se limitou a ter compaixão dos outros; Cristo provou ser “mestre verdadeiro” quando acolheu em si mesmo o plano doloroso do Pai, agonizando, subindo para o Calvário, derramando o seu próprio sangue.
Ninguém pode duvidar de que Dom Gino foi esse “mestre” durante os poucos anos de ministério episcopal. Mas como para Jó, faltava a prova decisiva, cabal: “Pele por pele!…Estende a tua mão; toca seus ossos e sua carne. Eu aposto que ele te lançará em rosto as suas maldições”(Jó2, 4-5). E Dom Gino foi tocado nos seus ossos e na sua carne, mas não lançou no rosto de Deus suas maldições; antes, deu a prova de que o que ele ensinava, estava enraizado na profundeza do seu ser.
Este Bispo morreu como Cristo, aguentando a dor na sua própria pele e oferecendo a sua própria dor, sacrificando a sua própria vida pela vida dos outros. Eis porque a morte de Dom Gino é mais preciosa do que a sua vida neste mundo. Na sua crueza, ela perturba e questiona o nosso cristianismo sentimental e superficial. É por isso que a Dom Gino pode ser muito bem aplicado o que a Carta aos Hebreus diz a respeito de Abel: “Mesmo depois de morto, ele ainda fala!”. (Heb 11, 4)
O magistério da cruz pessoal deste Bispo é destinado a ficar para sempre. Como a de Cristo. Assim morre um Bispo. Assim morre um Mestre.

Dom Gino Malvestio

UMA DOENÇA SILENCIOSA

Antes de se tornar bispo diocesano, Dom Gino Malvestio submeteu-se a uma cirurgia na região da bexiga. Um pequeno tumor foi retirado e o bispo tinha que dar continuidade ao tratamento visto a delicadeza da cirurgia, coisa que não foi feita. Em março do ano de 1997, começaram a aparecer fortes dores nesta região onde o bispo operou. Padre Henrique Uggé afirma que o bispo sempre encontrou na automedicação o controle para as dores. Segundo ele, Dom Gino não percebeu a gravidade da doença que, silenciosamente, estava tomando conta do seu organismo.
As dores tornavam-se mais frequentes e intensas, mas Dom Gino resistia em procurar tratamento especializado. Ainda participou ativamente dos festejos da padroeira de Parintins. Segundo padre Henrique, Dom Gino, durante a procissão sentia tanta dor que por dois momentos pensou em se retirar da mesma, mas ao mesmo tempo, decidiu de ir até o fim e presidir a missa de encerramento. A homilia de Dom Gino foi a mais bela que padre Henrique já escutara. Era como uma despedida onde o pastor da Diocese confiava a Nossa Senhora do Carmo o rebanho que lhe foi confiado. Falou do amor que experimentou com a Mãe de Deus, e exortava o povo a confiar neste amor. O estágio de dor de Dom Gino era tamanho que já afetava até os seus sentidos. Ao final da missa, o bispo chamou padre Henrique Uggé e perguntou porque não iriam realizar a procissão solene. O padre explicou que a procissão solene já tinha sido realizada antes da missa.
Logo após os festejos em honra a Nossa Senhora do Carmo, Dom Gino Malvestio seguiu para a Itália para se submeter a um tratamento de saúde. Até então, ninguém sabia do real estado de saúde do pastor diocesano. Na oportunidade da ida ao país de origem, Dom Gino aproveitaria para visitar parentes e amigos italianos que colaboravam com a Diocese de Parintins. Estava também na programação um encontro na Suiça, com os bispos que participam do movimento do Focolare, do qual Dom Gino era membro. Mas o agravamento do quadro de saúde não permitiu.
Não chegou a participar do encontro dos bispos focolarinos. Foi encaminhado às pressas para a Itália e lá chegando, foi internado no Hospital de Treviso onde os médicos descobriram que a doença, um câncer que iniciado na bexiga, já comprometia outros órgãos.
Na data de 07 de agosto de 1997, Dom Gino submeteu-se a uma intervenção cirúrgica em Treviso, na Itália. Tão logo a população católica da Diocese soube do estado de saúde do seu líder, mobilizou-se em oração pedindo a recuperação do pastor. O Vigário Geral da Diocese na época, padre Henrique Uggé, juntamente com os demais padres pediram a união dos cristãos numa corrente de fé em favor do Bispo.
Dia após dia o estado clínico de Dom Gino só piorava. A cada boletim médico que chegava da Itália, a angústia do clero e dos fiéis só aumentavam. A doença evoluía e já comprometia vários órgãos.
Na memória do povo, estava a imagem sofrida de Dom Gino na procissão de Nossa Senhora do Carmo. Não tinha como não imaginar as dores terríveis que o bispo estava sentindo.
Internado no hospital de Treviso, Dom Gino recebia diariamente a visita de familiares e amigos. Numa dessas visitas, o padre João Carlos, também do PIME, fez questão de enviar à Diocese o relato das palavras de Dom Gino quando lhe perguntaram se ele tinha algo para oferecer à Deus: “OFEREÇO A MINHA VIDA PARA A DIOCESE DE PARINTINS”.
Com estas palavras, o bispo exprimia o quanto sentia saudades de sua terra de missão e o quanto sentia falta de estar no meio do povo, aliás, esta era uma atitude na qual o pastor encontrava maior alegria. A presença constante de Dom Gino acompanhando os fiéis na cidade e no interior foi uma marca notória no seu episcopado.
O Papa João Paulo II, através de seu secretário de Estado do Vaticano, Cardeal Ângelo Sodano, enviou uma mensagem fraterna ao Bispo de Parintins, bem como aos familiares e a toda a comunidade do PIME, na Itália e no mundo afora:
“Informado das particulares condições de saúde de Sua Excelência Dom Gino Malvestio, Bispo de Parintins, o Sumo Pontífice deseja levar ao zeloso bispo missionário, expressões de sua afetuosa e espiritual aproximação e assegurando especial e orante lembrança, confiando Dom Gino à materna proteção da Virgem Santíssima e confere uma confortante benção apostólica extensiva também aos parentes e à comunidade religiosa do PIME. Cidade do Vaticano, 23 de agosto de 1997, Cardeal Ângelo Sodano, Secretário de Sua Santidade”

Dom Gino e o Papa João Paulo II

No dia 27 de agosto de 1997, o então pároco de Maués, padre Mário Pasqualotto, viajou para Treviso, em nome da Diocese de Parintins e dos padres do PIME que trabalhavam no Amazonas, a fim de acompanhar de perto a internação de Dom Gino. Chegando ao Hospital de Treviso, encontrou o amigo pastor inconsciente, com as forças físicas diminuindo mas que, de tempos em tempos, conseguia expressar um leve sorriso.
Perto de Dom Gino, padre Mário Pasqualotto revela aos amigos em Parintins que o quadro clínico se agrava a cada dia e agora é irreversível. Somente um milagre poderia restabelecer a saúde do pastor. O aparelho de oxigênio havia sido desligado e o bispo tinha fortes crises de dor a ponto de passar a maior parte do tempo sedado. Dom Gino não tinha mais forças sequer para balbuciar as palavras.
No dia 07 de setembro de 1997, exatamente às 09:12 minutos, o Pastor da Diocese de Parintins, Dom Gino Malvestio entregou seu último suspiro ao Pai. Tendo os amigos italianos próximos ao leito de morte e no coração, toda a Diocese que lhe foi confiada e que ele tanto amou.

Dom Gino

ADEUS DOM GINO

Era uma manhã de domingo, 07 de setembro de 1997. Os parintinense se entusiasmavam com o desfile cívico próprio deste dia, quando a cidade recebeu com tristeza a notícia: Dom Gino Malvestio falecera na Itália. Em Treviso, o relógio marcava 15:12 minutos. Em Parintins, precisamente 09:12. Aparentemente uma vitória da morte. Na verdade o ingresso na vida eterna, um prêmio, a consolação final ao lado do Pai.
O calvário de um mês e alguns dias no leito transformado em cruz chegava ao fim e agora descortinava-se à sua frente o prêmio do qual nos fala Paulo.
Sucessor dos apóstolos pelo chamado do Espírito Santo, Dom Gino mais do que ninguém, semelhante ao exemplo dado pelo apóstolo, combateu o bom combate.
Na Amazônia, com seus mistérios e o poder criador de seu povo, ensinam os mais velhos que ao redor das árvores gigantes florescem verdadeiros jardins. São plantas pequeninas que usufruem da sombra amiga e aconchegante e encontram nesse habitat condições para se desenvolver.
Assim acontece com os homens que se agigantam nas suas mais diversas atividades, inclusive na Igreja. Dom Gino foi esse gigante. Um pregador. Um pastor. O filho de camponeses da pequenina Briana de Naole, sua terra natal que preferiu da eloquência ao exemplo. O padre que preferiu arrastar pelo testemunho. E que testemunho.
Diante de sua dor, ele assumiu a figura do próprio Cordeiro. Se deixou imolar. Em silêncio e em extrema confiança. Santificou-se pela dor que enfrentou com franqueza. Parecia estar consciente da importância de deixar este legado aos seus padres e seminaristas, religiosos, leigos e leigas.
Nas missas celebradas ao longo da semana e na de sétimo dia realizada na Catedral de Nossa Senhora do Carmo, o povo rezou com a mesma esperança e com a mesma piedade que rezava com Dom Gino. Isso significa em simples palavras que ele, como Bispo, foi sinal vivo de unidade.
Editorial do Jornal Novo Horizonte do dia 14 de setembro de 1997

DOM GINO MALVESTIO: O FILHO DE CAMPONESES QUE VIROU PASTOR DE REBANHO

Dom Gino Malvestio nasceu na pequena cidade de Briana de Naole, em Treviso, na Itália, no dia 14 de janeiro de 1938. Seus pais, trabalhavam como camponeses para assegurar o sustento da família. Sentindo o chamado para entregar sua vida ao serviço do Reino através das missões além fronteira, iniciou seus primeiros estudos nos Seminários do Pontifício Instituto das Missões Estrangeiras – PIME, de Monza e de Milão. Há cada passo dado na formação religiosa, Gino alimentava sempre mais o seu desejo de receber o envio missionário e servir o próximo.

Em Monza, cursou filosofia e em Milão, teologia. Quando concluiu os estudos, Gino Malvestio foi ordenado sacerdote no dia 26 de junho de 1965. De início, recebeu envio para desenvolver sua atividade missionária no Brasil, particularmente na então Prelazia de Parintins, no mesmo ano. A convite do primeiro Bispo da Prelazia, Dom Arcângelo Cerqua, padre Gino tornou-se reitor do seminário em Parintins, animando os jovens e ajudando a organizar as comunidades e os movimentos. Permaneceu até 1972, quando atendendo a ordens superiores, retornou à Itália para dirigir o seminário do PIME, em Sotto Il Monte, a casa onde morou o São João XXIII, o Papa que convocou o Concílio Ecumênico Vaticano II.
Em 1982, ele voltou ao Brasil e se reencontrou novamente com o Amazonas. Veio trabalhar no Regional Norte I. Naquele ano, assumiu a função de Diretor Espiritual do Seminário Arquidiocesano de Manaus. Em 1989, já estava trabalhando diretamente na Diocese de Parintins, precisamente como pároco de São José Operário, onde realizou um excelente trabalho, principalmente no campo social, estimulando Clubes de Mães e Associações de Bairro.
Tendo como Bispo Dom João Rizatti, padre Gino foi nomeado em 1990, o Vigário Geral da Diocese de Parintins. Como Vigário Geral, ele acompanhou de perto a ocupação do bairro de Itaúna I e ao lado do povo, enfrenta hostilidade. Era a hora do testemunho.
Com a ida de Dom João Rizatti para Macapá em substituição de Dom Luiz Soares Vieira que assumiu o Arcebispado em Manaus, padre Gino é nomeado no dia 09 de março de 1994 pelo Papa João Paulo II, o terceiro Bispo Diocesano. A Sagração ocorreu na noite do dia 14 de maio de 1994. Escolheu para seu Lema: Em nome de Maria.

Sagração Episcopal de Dom Gino

Dom Gino marcou seu pastoreio pela busca permanente do diálogo com as outras religiões e uma constante preocupação como o homem, imagem e semelhança de Deus. Estimulou as pastorais e movimentos, trabalhou para o fortalecimento da família e convocou duas Assembleias Diocesanas. Procurou estar com o povo e numa atitude surpreendente para a época, chegou a visitar os currais de Caprichoso e Garantido. O Bispo era um homem afável, de voz mansa, gestos calmos. Gostava das crianças, dos jovens, e tinha um amor imenso pelo interior.
Durante a doença, nunca se ouviu dele uma palavra de queixa ou angustia. Nada. Sofreu em silêncio e deu sua vida pela Diocese de Parintins.
Reportagem Especial
Da Redação, José Paulo Pacheco com trechos da Edição do Jornal Novo Horizonte do dia 14 de Setembro de 1997