Gostaria de dedicar esta reflexão hoje a todos os sacerdotes aqui presente, e a inicio com as palavras de uma carta de São João Paulo II, por ocasião da quinta-feira santa de 1979, numa carta endereçada aos bispos e presbíteros. Eis oque ele diz: “Caros Irmãos: no princípio do meu ministério confio-vos a todos à Mãe de Cristo. Ela é de modo particular, a nossa Mãe: a Mãe dos Sacerdotes. Com efeito, o discípulo amado, um dos doze que tinha ouvido no Cenáculo as palavras “Fazei isto em memória de mim”, foi precisamente por Cristo indicado do alto da Cruz à sua Mãe, com esta expressão: “Eis aí o teu filho”. Aquele homem, que na Quinta-Feira Santa recebera o poder de celebrar a Eucaristia, foi também com estas palavras do Redentor agonizante dado a Sua Mãe como “filho”. Todos nós … os que recebemos o mesmo poder, mediante a Ordenação Sacerdotal, somos os primeiros, em certo sentido, a ter o direito de ver n’Ela a nossa Mãe.”

Poderíamos nos perguntar qual a relação de Maria com a vocação sacerdotal? Eis que a resposta logo vem: ambos tem como finalidade dar Cristo à humanidade, assim alguns santos padres da Igreja pensavam: “Maria,Mãe de Deus, gerou Cristo pão da vida, sacrifício, vítima e sacerdote”… É o sacerdote que gera Cristo, Pão de Vida eterna para todos. Maria dá Cristo à humanidade; e também o sacerdócio dá Cristo à humanidade, mas de um modo diverso, como é claro; Maria mediante a Encarnação e mediante a efusão da graça, da que Deus a preencheu; o Sacerdócio através do poder da Ordem sacra. A analogia entre Maria e o sacerdote pode-se exprimir assim. Maria, pela obra do Espírito Santo, concebeu Cristo e, depois tê-lo nutrido e alimentado em seu seio, deu-o à luz em Belém; o sacerdote, ungido e consagrado pelo Espírito Santo na ordenação, é chamado também ele a preencher-se de Cristo para poder dá-lo à luz e fazê-lo nascer nas almas através do anúncio da Palavra, da administração dos sacramentos. Não queremos aqui pensar em Maria como alguém que tenha recebido o sacramento da ordem, mas, que foi cumulada de uma graça universal.  O sacerdote ministro participa do ser, da função e da vida íntima deCristo. Com Cristo, ele é consagrado e enviado, assim o sacerdote realiza os sinais do sacerdócio de Cristo presente na Igreja: a sua palavra, o seu sacrifício, a sua ação salvífica e pastoral.

Quem é a Virgem Maria? Umamulher tão igual as outras, porém escolhida por Deus, separada, consagrada pela força do Espírito Santo. Quem é o sacerdote? É um homem entre os homens, com as mesmas procuras, anseios e sedes de todos os homens; é também um discípulo de Cristo de espírito pronto e carne fraca… É um homem, portanto, “retirado do meio dos homens” como diz a carta aos Hebreus. Retirado quer dizer separado, consagrado, segregado: “separado para o Evangelho de Deus” (Rm 1,1). Assim sendo, qualquer tentativa de mundanizar o padre com pretextos teológicos fajutas, é uma grave infidelidade ao significado do seu sacerdócio. Um dos grandes motivos da crise da Igreja atual é a forte secularização do clero! Já Paulo VI exclamava, pesaroso: “O povo de Deus não tem mais a alegria de ver os seus padres! ” Mesmo o padre secular não deve ser padre secularizado… deve exprimir o seu ser de homem como os outros e homem tirado do meio dos homens. Como a Virgem Maria ele é santo, é sagrado, é consagrado, é imagem do Cristo cabeça, pastor e sacerdote eterno…

A Virgem Maria, quando escolhida, não foi feita mãe do Senhor para si mesma. Foi mãe, para os outros, para ahumanidade, por isso Jesus diz do alto da Cruz: “Eis aí a tua mãe”. Mãe de todos, em favor de todos e para interceder pelos outros. O sacerdote é tirado do meio dos homens, o sacerdote “é instituído em favor dos homens nas coisas que se referem a Deus”. É profunda e bela essa afirmação: o sacerdote não é para o sacerdote: é para a humanidade: “instituído em favor dos homens”. Em favor não só da Igreja, mas de toda a humanidade. Toda existência do sacerdote deve ser uma pró-existência, uma existência em favor dos, em função dos outros. Mas, note-se que há uma restrição importante: “nas coisas que se referem a Deus”. O serviço do padre não é o do advogado, do assistente social, do líder político, do líder sindical, do revolucionário social. O padre é fiel ao seu ministério quando se dedica de corpo e alma às coisas de Deus; ele serve de verdade aos homens dando-lhes aquilo que ninguém mais, a não ser ele mesmo, pode dar: Deus e sua graça, administrando os santos mistérios! Anunciando a Palavra, visitando os doentes, dando avida pelo rebanho. Éfalsa a desculpa de padre ativista, metido com política de direita ou de esquerda com a desculpa esfarrapada de que isso é um serviço ao povo de Deus. Mentira! Não é este o serviço que o rebanho espera de seus sacerdotes. A Palavra do Senhor é claríssima: “Instituído em favor dos homens nas coisas que se referem a Deus!” O resto é conversa fiada!

Qual é o núcleo do serviço do sacerdote? Qual é o núcleo de suas atividades nas coisas que se referem a Deus?  É olhando novamente para Maria que compreendemos este serviço, esta vocação. Maria Ofereceu, apresentou seu filho desde o nascimento aos pastores, aos magos, na apresentação, como no alto da Cruz. Ali estava a Virgem oferente, oferecendo ao Pai, em favor da humanidade inteira o único sacrifício, o Cordeiro sem mancha para purificar a humanidade de seus pecados, ela o ofereceu desde o “fiat até o Stabat Mater”. O sacerdote é “para oferecer dons e sacrifícios pelos pecados”. Para desgosto de muitos teólogos e de muitos pastoralistas compulsivos, o cerne da missão sacerdotal é oferecer sacrifícios pelos pecados. Na perspectiva do Novo Testamento, o sacrifício por excelência, que sintetiza e cumpre todos os outros, é o sacrifício pascal de Cristo, tornado sacramentalmente presente em cada Eucaristia. Estando assim as coisas, podemos afirmar sem medo de errar que o padre é sacerdote para o Altar, para o sacrifício eucarístico! Aqui se dá sua maior e mais intensa identificação com o Cristo Sumo e Eterno Sacerdote; aqui o eu do padre é assumido pelo eu de Cristo de um modo misterioso, intenso e real. Assim fez a Virgem? Deu ao mundo Cristo total, Cristo Todo.

A contribuição pessoal, comum a Maria e ao sacerdote, resume-se na fé. Maria, escreve Agostinho, “pela fé concebeu e pela fé deu à luz” (fide concepit, fide peperit); também o sacerdote, pela fé leva Cristo em seu coração e mediante a fé o comunica aos demais. Todos devem e podem imitar Maria em sua fé, mas de modo muito especial deve fazê-lo o sacerdote. “Meu justo – diz Deus – viverá pela fé (Hab 2, 4; Rm 1, 17): isto se aplica, em especial, ao sacerdote. Ele é o homem da fé. A fé é o que determina, por assim dizer, seu “peso específico” e a eficácia de seu ministério. O que os fiéis captam imediatamente em um sacerdote, em um pastor, é se “crê”, se crê no que diz e no que celebra. Quem busca no sacerdote antes de tudo a Deus, se dá conta em seguida; quem não busca nele a Deus, pode ser facilmente enganado e induzir a engano o próprio sacerdote, fazendo que se sinta importante, brilhante, ao ritmo da moda, quando na realidade é “bronze que soa e címbalo que retine”. Em Maria buscamos Cristo, Deus que se fez carne em seu ventre. Isabel sentiu em Maria Deus, e sua fé, por isso exclamou: “Feliz és tu porque creste”(Lc 1, 41).

Há duas brevíssimas palavras que Maria pronunciou no momento da Anunciação e que o sacerdote pronuncia no momento de sua ordenação: “Aqui estou! ”e“Amém”, ou “Sim”. Recordo o momento quando estava perante o altar para a ordenação. Em um determinado momento, pronunciou-se meu nome, e eu respondi emocionadíssimo: “Aqui estou”. Ao longo do rito, foram-me dirigidas algumas perguntas: “Queres exercer o ministério sacerdotal por toda vida? ”, “Queres realizar digna e fielmente o ministério da palavra na pregação? ”, “Queres celebrar com devoção e fidelidade os mistérios de Cristo? ”. A cada pergunta, respondi: “Sim, quero! ”. A renovação espiritual do sacerdócio católico, será proporcional ao impulso com que cada um de nós, sacerdotes ou bispos da Igreja, formos capazes de pronunciar de novo um gozoso “Aqui estou! ”e “Sim, quero!”, fazendo reviver a unção recebida na ordenação.

Que neste ano Vocacional, todo o clero desta amada diocese, sinta-se chamado a renovar em Maria seu pastoreio. Que cada um dos sacerdotes aqui conheçam as pessoas, pois “o Bom Pastor conhece as ovelhas”, já que sendo presbítero, sinal de Cristo Pastor, vocês foram chamados a conhecer as pessoas das comunidades. Conhecer não para dominar, pois avocação de vocês é ficar atentos, vigiar, e perceber quais as reais necessidades daqueles (as) que vivem nas comunidades. Viver em sintonia com seu rebanho. Que vocês renovem, neste ano, o chamado a “dar a vida” pela humanidade. Conhecer é amar. O Bom Pastor dá avida por suas ovelhas. O presbítero é vocacionado para o martírio, ou seja, para ser “no meio do povo, um defensor que promove e ajuda as pessoas a terem vida digna de gente, não permitindo que lobos vorazes ataquem e dispersem seu rebanho. Se no altar agimos “in persona Christi”,que seja um consumir-se totalmente não deve reduzido apenas a dimensão sacramental, mas que seja um verdadeiro agir em Cristo na oblação de nossas vidas, na libertação integral dos pobres, nas causas dos indígenas, no combate ao desmatamento da floresta.

Que Deus e a Virgem Mãe e Padroeira do Carmo, faça surgir santas e abençoadas vocações sacerdotais para esta diocese e que os jovens vocacionados e seminaristas, futuros sacerdotes possam contemplar na Virgem Maria tudo o que desejam ser como sacerdotes neste mundo e igreja particular. Amém.

Fr. José Leandro A. da Silva, O. C

Pregador do Novenário