Na visão popular, cotidiana, corriqueira, o termo leigo normalmente indica alguém estranho a um assunto. Em outros significados dizem ser alguém quenão tem a ordem sacra, tal conceito, negativo, deu-se pela clericalização da igreja, onde os cristãos leigos e as cristãs leigas encontravam-se totalmente excluídos da participação direta na vida e ação da Igreja.

No documento Conciliar Lumen Gentium, diz que “por leigo entende-se aqui o conjunto dos fiéis…que incorporados em Cristo pelo batismo e constituídos em povo de Deus, e por participarem a seu modo do múnus sacerdotal, profético e real de Cristo, realizam na Igreja e no mundo, a missão de todo o povo cristão… aos leigos compete, por vocação, buscar o reino de Deus, ocupando-se das coisas temporais e ordenando-as segundo Deus….vivem o mundo, no meio de todas e cada uma das atividades: profissão , família… Aí Deus os chama a contribuírem, do interior, à maneira de fermento, para a santificação do mundo…manifestarem Cristo aos outros… com o testemunho da vida e o fulgor da sua fé, esperança e caridade”. (LG 31)

Qual a relação de Maria com a vocação laical? Muitas! Mas vejamos a relação laical no contexto da anunciação. Primeiro a identidade de Maria acontece não como em Zacarias, em Jerusalém, cidade santa e sacerdotal, mas, “em uma cidade da Galileia chamada Nazaré” (Lc 1, 26): cidade profana. Além disso a anunciação não ocorre, como no caso de Zacarias, no templo de Jerusalém, mas em uma simples casa em que Maria mora como leiga.  Isto significa dizer que, de agora em diante, todos os lugares profanos são idôneos para a visita de Deus, para a manifestação da sua vontade, para o acolhimento de palavra, para adesão ao seu projeto. Além disso, a anunciação não se realiza em contexto litúrgico-sacerdotal, mas na ferialidade e na cotidianidade domesticas: no clima de casa de um dia nazareno qualquer. Já Zacarias está no templo quando do anúncio do nascimento de João Batista. Maria não é apenas morada de Deus, mas como arca, leva Deus aonde o homem se encontra.  Maria vai em direção das montanhas para visitar Isabel.  A visita de Maria a Isabel, inspira o estilo cristão dos leigos, não só como sinal do serviço, mas antes de mais nada como sinal do que seja levar Cristo ao mundo.

Agora falo paratodas vós. Maria ilumina a vocação de vocês, e o quanto esta vocação é importante para a igreja. Mas esta vocação cada um recebe enquanto está na comunidade. Não tipo de chamado dirigido a pessoas isoladas, fora da comunhão, fora da participação, vivendo por conta própria.  O apelo divino chega sempre e somente para quem já se encontra plenamente inserido na vida da comunidade.

Convém observar que a vocação, entendida sempre como convocação para a realização de uma missão, é sempre posterior ao processo de conversão. O vocacionado, deve primeiro converter-se, e só então recebe o chamado para a missão. Protótipo desse dinamismo é o Apóstolo Paulo. Ele primeiro é derrubado no caminho de Damasco (At 9, 1-9), vive e assume o processo de conversão, e somente depois é separado e enviado pelo Espírito Santo para evangelizar. Temos que buscar aconversão para sermos sal e luz desta terra, “conservando e aperfeiçoando na vida a santidade que receberam…que todos os fiéis, seja qual for o seu estado ou classe, são chamados à plenitude devida cristã e à perfeição da caridade, santidade esta que promove, mesmo na sociedade terrena, um teor devida mais humano. A santificação de vocêsestá no dia a dia, nas diversas ocupações e circunstâncias, ou seja, ser santo, na igreja, na escola, no trabalho, na política, na rua, com os amigos, no futebol e etc… É aí o espaço, o local para sua santidade.

Agora, olhando para a Virgem Maria, vejamos como vocês leigos, podem assumir sua vocação na Igreja e na sociedade. Na Igreja, desde o Vaticano II aconteceu amplo florescimento de ministérios, assumidos pelos leigos em virtude dos Sacramentos do Batismo e da Crisma e das variedades de carismas. Além de ser esta presença ativa no mundo, o Espírito Santo distribui entre os leigos dons e carismas para servirem mais diretamente a comunidade eclesial, através dos ministérios. Ex: catequese, liturgia, ministério da Eucaristia, da palavra, do canto, da saúde, da promoção social, da animação das comunidades, entre outros.

Neste particular, tem grande importância aquele estado de vida que está santificado por um sacramento especial, a vida matrimonial e familiar. Nela os cônjuges tem a própria vocação para serem, um para o outro e para os filhos, testemunhas da fé e do amor de Cristo.

Em nosso país, são particularmente numerosas as celebrações dominicais da Palavra, presididas por leigos, são chamados a este ministério para suscitar a fé.  Muitos outrosleigos e leigas, especialmentecatequistas, cuidam da educação da fé de crianças, jovens e adultos. Hoje, a catequese supre muitas vezes a falta de educação dafé por parte das famílias. Há os que são ministros extraordinários da Sagrada Comunhão. No exercício deste ministério, prestam preciosa colaboração na assistência espiritual aos enfermos e idosos. As exéquias constituem-se num momento pastoral privilegiado, porque todos estão, nesta hora, mais abertos à mensagem da fé. Sua celebração hoje já é realizada por leigos que, em nome da igreja, nessa ocasião dão testemunho de esperança, de solidariedade e de conforto. A crescente busca de espiritualidade e de oportunidades de oração comunitária suscita a procura de formação de animadores de grupos de oração, retiros, círculos bíblicos, reza do terço nas casas eruas, animação da música e do canto religioso.  É notável a difusão dasequipes que cuidam da celebração dominical.

Constata-se, com alegria, que cresce na igreja o número de teólogos e teólogas leigos que assumem a missão do pensar teológico. Ainda, as difíceis condições econômicas do povo tem gerado uma preocupação de administrar com eficiência os recursos escassos dascomunidades, para assegurar, da melhor forma possível, a construção de igrejas, capelas. Neste serviço de administração, destacam-se muitos leigos que zelam pelo bem da diocese, da paróquia e das comunidades. Aqui lembramos tantos leigos que compõem os conselhos pastorais e econômicos, em nível diocesano, paroquial e comunitário.

É importante que os jovense adultos continuem a assumir a iniciativa dereunir grupos de jovens, para a oportunidade de formação, crescimento, opção vocacional e engajamento. Como também incentive os grupos de infância missionarias. Finalmente, leigos e leigas, assumem unções de coordenação de pastoral.

O mais importante é que todos os leigos são chamados a evangelizar, a se tornarem missionários, anunciadores da boa nova atodos os povos, disse o Senhor: “Ide anunciai o Evangelho a todos os povos”. Triste é percebermos que alguns pensam que o anúncio seja só dos ministros ordenados. Não!É convocação do Senhor a todas as vocações e a você leigo. Enquanto você não evangeliza, as estruturas de morte, de trevas, injustiça abarca as muitas vidas que poderiam ter outro destino se você tivesse assumido esta vocação de anunciar o evangelho.

O leigo deve olhar para o mundo com realismo e com esperança. Por isso, com esperança ele luta por um mundo, uma sociedade mais justa e solidaria. E em nome da Igreja, e por força de seu bastimos, esperamos que cristãos autênticos possam desempenhar cada vez mais papéis na sociedade com seriedade. Vejam que são leigos os que assumem a política, e outros cargos relevantes na sociedade. Mas não queremos que sejam apenas cristãos, leigos de nome, o sejam de fato. Nas atividades da vida do cotidiano testemunhem Cristo e seu evangelho. Por isso queremos leigos comprometidos com o evangelho na política.

Gostaria de não elencar inúmeras atividades do leigo no mundo, apenas duas e uma bem mais longa da nossa situação atual. Mas a primeira missão do leigo nomundo é a de defender e promover a vida como tarefa central  usando de todos os meios que o mundo moderno já oferece, eles devem ajudar a cada ser humana o a descobrir a dignidade inviolável de cada pessoa. Pertence aos fiéis leigos, que mais diretamente ou por vocação ou por profissão se ocupam do acolhimento à vida tornar concreto e eficaz o sim da Igreja à vida humana, trata-se de recusar todas e quaisquer formas de discriminação, de violação e de tentado contra apessoa humana.

Numa sociedade em que as estruturas econômicas e políticas estão perdendo suas referências éticas, os leigos empenhados nela, precisam contar com o apoio e acompanhamento espiritual e solidariedade mais efetiva por parte dos pastores e da comunidade eclesial. São João Paulo II no documento para os leigos afirma: “ Para animar cristãmente a ordem temporal, no sentido de que se deve servir a pessoa e a sociedade, os fiéis leigos não podem abdicar da participação na política”, ou seja da múltipla e variada ação econômica, social, legislativa, administrativa e cultural, destinada a promover orgânica e institucionalmente o bem comum.  Esta participação na política dos leigos não se resume em votar no período das eleições. Participar da política significa o engajamento nas iniciativas que buscam o compromisso com aslutas pela defesa da dignidade humana, numa atitude de colocar-se do lado – não ao lado para as fotos nas eleições – dos mais fracos, dos oprimidos, dos que estão excluídos e marginalizados. Atuar na política quer dizer ainda comprometer-se com atividades e programas que visam à construção da paz, da justiça social.  O objetivo de todo engajamento político não deve ser o auto enriquecimento, com os tantos caixas dois, mas é a criação de estruturas mais justas e mais fraternas, que possibilitem iguais dignidade, respeito e possibilidades a todos os homens emulheres.

Se a política for assumida com seriedade por cristão de fato, não só denome, mas de vivencia e de testemunho dos valores éticos, e aqui não falo de umapolítica católica, mas que a assuma quem se deixa reger por justos valores e princípios comuns, os leigos ajudarão a superar a mentalidade instaurada hoje de que a política é “coisa suja”. Sejam os leigos profetas e profetisas inconformados com a situação política. Precisam cantar e profetizar como Maria: “…eleva os humildes, derruba os poderosos, sacia de bens os famintos, e despede os ricos de mãos vazias”. Os bispos do Brasil nos disseram que a regra para ação política será sempre: “ a democracia só serealiza, de fato, quando o sistema econômico não exclui parcelas da população dos meios necessários a uma vida digna e quando todos tem acesso ao trabalho com justa remuneração, à moradia, à educação, à saúde e à participação nos lucros”. Mas nunca esqueçam que a coisa mais importante é o fato de que a participação política dos cristãos só é verdadeira quando se transforma em solidariedade concreta. A solidariedade verdadeira é a quemotiva mudanças radicais profundas, fazendo com que os oprimidos passem de sujeitos passivos a agentes ativos da transformação da própria vida. Assim, a solidariedade só acontece quando passamos do puro assistencialismo à ação incisiva no campo político, provocando a realização da verdadeira democracia, cujo rosto é aigualdade de oportunidades para todas as pessoas.

Há um risco muito sério: o de confundir solidariedade com simples piedade, dó, comiseração, pena. Por causa disso, muita gente se dá ao assistencialismo barato, fazendo que as pessoas beneficiadas não passem da condição de expectadoras e admiradoras de seus benfeitores.  É claro que a proteção, o socorro imediato, os auxílios na hora da necessidade são indispensáveis. Todavia, não se pode confundir solidariedade com estasformas assistencialistas, uma vez que elas contribuem para que as pessoas excluídas continuem na mesma condição porqueisto é garantia de voto, infelizmente. Qual o político que tem interesse em tirar o povo da miséria? Se os tiram, eles perdem voto e ganha mais voto com o triste assistencialismo.

Que nesta festa, todos vós leigos desta paróquia seja uma força transformadora nesta cidade, uma força idealizada pelo exemplo profético da Virgem Maria, para que nossos povos tenham vida e vida em abundância. Não queremos leigos de bancos, queremos leigos discípulos, anunciadores do reino em todos os cantos, destemidos  e fortalecidos pelo Espírito Santo. Amém.

 

Fr. José Leandro A. da Silva, O. C

Pregador do Novenário