“A alegria do amor que se vive nas famílias é também o júbilo da Igreja”, disse o Papa Francisco na Exortação apostólica pós-sinodal, “Amoris Laetitia”. A Bíblia aparece cheia de famílias, gerações, histórias de amor e de crises familiares, desde as primeiras páginas onde entra em cena a família de Adão e Eva, até as últimas onde aparece as núpcias, o casamento do Cordeiro. Jesus fala de duas casas, uma construída na areia e outra na rocha. Queremos construir as nossas casas, famílias na rocha, por isso com o salmista vamos entrar numa casa sobre a rocha, eis o que diz: Felizes os que temem o Senhor e trilham seus caminhos.Feliz és tu, se temes o Senhor e trilhas seus caminhos!Do trabalho de tuas mãos hás de viver, serás feliz, tudo irá bem! A tua esposa é uma videira bem fecunda no coração da tua casa;os teus filhos são rebentos de oliveira ao redor de tua mesa. Será assim abençoado todo homem que teme o Senhor.O Senhor te abençoe de Sião,cada dia de tua vida, para que vejas prosperar Jerusalém,e os filhos dos teus filhos.Ó Senhor, que venha a paz a Israel,que venha a paz ao vosso povo!

Neste salmo encontramos Maria, José e Jesus.  Por isso precisamos mergulhar nesta noite, como família, no mistério do “Sim” de Maria ao anúncio do anjo, no nascimento de Jesus e ainda no sim de José, que deu o nome a Jesus e cuidou de Maria. Entrar no segredo de Nazaré, cheio de perfume da família. Por isso, com esta Sagrada família cruzemos o limiar desta casa serena. No centro encontramos o casal formado pelo pai e a mãe com toda uma história de amor. Neles se realizam o desígnio que o Cristo evoca com decisão: “Desde o princípio o criador, os fez homem e mulher? … por isso deixará o homem o pai e a mãe e se unirá à sua esposa, e eles serão uma só carne”. Deste encontro, que cura a solidão, surge a geração e a família.  O fruto da união é “tornar-se uma só carne”, quer no abraço físico, quer na união dos corações e das vidas e, porventura, no filho que nascerá dos dois que, há de trazer as duas carnes, unindo-as geneticamente e espiritualmente, assim tua esposa é uma videira bem fecunda.

Os teus filhos como brotos de oliveira, isto é, cheios de vida, energia, de vitalidade. Se os pais constituem os alicerces da casa, os filhos são as pedras viva desta família.

A bíblia considera a família também como o local da catequese dos filhos, ou seja, uma igreja doméstica. Por isso, a família é o lugar onde os pais se tornam os primeiros mestres da fé para seus filhos. Assim foi Maria para Jesus. Maria sempre fiel aos mandamentos de Deus e a todas as leis. Os pais tem o dever de cumpri, com seriedade, a sua missão educativa. Os filhos são chamados a receber e praticar o mandamento “honra teu pai e tua mãe”, pois quem respeita a sua mãe é como alguém que ajunta tesouro, diz o Eclesiástico 3, 3-4.

No início do salmo, o pai é apresentado como um trabalhador que pode, com a obra das suas mãos, manter o bem-estar físico e a serenidade da sua família. O trabalho torna possível o sustento da família. Ainda na Bíblia realça-se também a tarefa da mãe de família, cujo trabalho aparece descrito em suas múltiplas situações diárias, merecendo elogio do marido. Assim faziam José e Maria, ambos trabalhavam. Agora olhemos para nossa realidade, quanto desemprego gerando sofrimento, muitas famílias necessitadas e famintas e isto afeta de várias maneiras a serenidade das famílias.

Cada família tem diante de si o ícone da família de Nazaré, com o seu dia a dia feito de fadigas e até de pesadelos, como quando teve que sofrer a violência de Herodes. Como os Magos, as famílias são convidadas a contemplar o Menino com sua mãe, e prostrar-se a adorá-lo. Como Maria, as famílias são exortadas a viver, com coragem e serenidade, os desafios familiares tristes e entusiasmantes, e a guardar e meditar no coração as maravilhas de Deus. No tesouro do coração de Maria, estão também todos os acontecimentos de cada uma das nossas famílias, que ela guarda solicitamente.

A aliança de amor e fidelidade, da qual vive a Sagrada Família de Nazaré, ilumina o princípio que dá forma a cada família, tornando-a capaz de enfrentar melhor as vicissitudes da vida e da história. Sobre este fundamento, cada família, não obstante a sua fragilidade, pode tornar-se uma luz na escuridão do mundo.

De cristo, através da Igreja, o matrimônio e a família recebem a graça do Espírito Santo, para testemunhar o Evangelho do amor de Deus. O sacramento do Matrimônio não é uma convenção social, um rito vazio ou o mero sinal externo de um compromisso. O sacramento é um dom para a santificação e a salvação dos esposos. Por isso, a decisão de casar e formar uma família deve ser fruto de um discernimento vocacional. O sacramento não é uma “coisa” nem uma “força”, mas o próprio Cristo, na realidade, vem ao encontro dos cônjuges cristãos pelo sacramento do matrimônio. Permanece com eles, concede-lhes a força de segui-lo levando sua cruz e de levantar-se depois da queda, perdoar-se mutuamente, carregar o fardo uns dos outros.

O matrimônio é em primeiro lugar transmissão da vida. O filho pede para nascer, não de qualquer maneira, mas deste amor, porque ele não é uma dívida, mas uma dádiva, que é o fruto do ato específico do amor conjugal de seus pais. Neste contexto,não posso deixar de afirmar que, a família é o santuário da vida, o lugar onde a vida é gerada e cuidada, constitui uma contradição pungente fazer dela o lugar onde a vida é negada e destruída. O bebê que chega “não vem de fora acrescentar-se ao amor mútuo dos esposos: surge no próprio âmago dessa doação mútua, da qual é fruto e realização.

Gostaria ainda de exaltar o amor no matrimônio. Se tudo o que falamos, se na família falta amor, nada disto será possível. Mas a palavra amor, uma das mais usadas, muitas vezes aparece desfigurada. No chamado hino à caridade escrito por São Paulo, vemos algumas características do amor verdadeiro, amor que deve estar na família: “O amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha. Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor. O amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.” (1 Cor 13,4-7).

Paciência – uma pessoa mostra-se paciente, quando não se deixa levar pelos impulsos interiores e evita agredir. Se não cultivarmos a paciência a família tornar-se-á um campo de batalha. Por isso, a palavra de Deus exorta-nos: “Desapareça do meio de vós todo amargor e exaltação, toda ira e gritaria e toda espécie de maldade. (Ef 4, 31).

Bondoso –  Aqui Paulo quer insistir que o amor não é apenas um sentimento, mas deve ser entendido no sentido que o verbo amar tem em hebraico: “fazer o bem”.  Pois como diz Santo Inácio de Loyola:“O amor deve ser colocado mais nas obras do que nas palavras”.

Curando a inveja – em seguida rejeita-se, como contraria ao amor, uma atitude que pode significar ciúme ou inveja. A inveja é uma tristeza pelo bem alheio, demonstrando que não nos interessa a felicidade dos outros. O verdadeiro amor aprecia os sucessos alheios, não os sente como ameaça.

Sem ser arrogante nem se orgulhar – na vida familiar, não pode reinar a lógica do domínio de uns sobre os outros, nem a competição para ver quem é mais inteligente ou poderoso, porque esta lógica acaba com o amor. “Revestir-vos todos de humildade no relacionamento mútuo… pois Deus dá sua graça aos humildes” (1Pd 5,5).

Amabilidade – amar é também tornar-se amável. Significa que o amor não age rudemente, não se mostra duro no trato. Os seus modos, as suas palavras, os seus gestos são agradáveis, não ásperos, nem rígidos.  Detesta fazer os outros sofrerem.

Desprendimento –  o amor não procura seu próprio interesse, ou seja,não cuide somente do que é seu, mas também do que é dos outros. Deve-se evitar dar prioridade ao amor a si mesmo, como se fosse mais nobre do que o dom de si aos outros.

Perdão – em família nunca deve terminar o dia sem fazer as pazes. E como devo fazer as pazes? Ajoelhar-me? Não!Basta uma caricia sem palavras.  De cada família, é exigida, pronta e generosa disponibilidade à compreensão, à tolerância, ao perdão, à reconciliação.

Tudo desculpa – os esposos que se amam e se pertencem, falem bem um do outro, procurando mostrar mais o lado bom do que suas fraquezas.  Guardem silêncio para não danificar a sua imagem.  Sabemos que no seio familiar e em cada um de seus membros há uma combinação de sombras e de luzes. O amor convive com a imperfeição, desculpa-a e sabe guardar silêncio perante os limites do ser amado.

Confia – tudo crê, não só se trata de uma confia teológica. É precisamente esta confiança que torna possível uma relação em liberdade. Não é necessário controlar o outro, seguir minuciosamente os seus passos, para evitar que fuja dos meus braços.  O amor confia, deixa em liberdade, renuncia a controlar tudo, a possuir tudo,a dominar. Uma família, onde reina uma confiança sólida, carinhosa e, aconteça o que acontecer, fará com que se rejeite o engano, a falsidade e a mentira. A confiança torna avida transparente sem dissimulações.

Espera –não desespera do futuro. Ligado a palavra anterior, indica a esperança de quem sabe que o outro pode mudar; sempre espera que seja possível um amadurecimento, um inesperado surto de beleza, que as potencialidades mais recônditas dos eu ser germinem algum dia.

Tudo suporta – é manter-se firme no meio das contrariedades. É amor que, apesar de tudo não desiste. Esta pessoa que está ao teu lado tem algo de bom, não só há fatos e atitudes ruins, nela há algo de bom…por isso suporta na fraqueza este que está ao teu lado.

Que nossas famílias olhando para a vida e o amor da Sagrada família aprendam a viver na sociedade como famílias que urgentemente necessitamos. Por vocês uma prece, uma consagração com as palavras do Papa Francisco dirigias a Sagrada Família:

Jesus, Maria e José, em Vós contemplamos o esplendor do verdadeiro amor e, confiantes, a Vós nos consagramos.Sagrada Família de Nazaré, tornai também as nossas famílias lugares de comunhão e cenáculos de oração, autênticas escolas do Evangelho e pequenas igrejas domésticas.Sagrada Família de Nazaré, que nunca mais haja nas famílias episódios de violência, de fechamento e divisão; e quem tiver sido ferido ou escandalizado, seja rapidamente consolado e curado.Sagrada Família de Nazaré, fazei que todos nos tornemos conscientes do carácter sagrado e inviolável da família e da sua beleza no projeto de Deus.Jesus, Maria e José, ouvi-nos e acolhei a nossa súplica. Amém.

 

Fr. José Leandro A. da Silva, O. C

Pregador do Novenário