Maria, pois é modelo para a Igreja; e mais: é o melhor e o mais completo modelo com que pode comparar-se e do qual pode tirar inspirações no seu caminho a cada momento: o modelo mariano é contemporâneo a todos os tempos  e serviço da e na igreja. Mas a mulher de Nazaré é modelo sobretudo para a Igreja histórica a caminho, a igreja “povo de Deus” que o Vaticano II descreveu na Lumen Gentium.

Maria deu testemunho de fiel coerência à sua palavra “eis a serva do Senhor” (Lc 1, 38) na lógica do evangelho, tal diaconia não é escravidão. Maria é serva livre do Senhor, colabora com ele nãomediante submissão cega, porém demonstrando inteligente e perspicaz consciência da “palavra” que ela escuta e põe em prática.

A igreja imita a diaconia de Maria quando cede o lugar a Deus; quando escuta e aplica a palavra primeiro a si mesma; quando não substitui a palavra pela interpretação acidental; quando se torna mediação de salvação traduzindo em linguagem compreensível a solicitude mariana: “Fazei tudo o que ele vos disser”. Como Maria, ao lado do homem e detodas as suasvicissitudes,a igreja serve à redenção mantendo-se perto de cada homem e detodos os homens.

Assim fez a Virgem Maria, a perfeita diaconisa, aquela que se fez serva, aquela que serviu aos necessitados, aquela que fui até Isabel, não em um passeio turístico, mas para servir e servir como Deus serviu ao seu povo. Aquela que ajudou aquele casal em caná. Maria sempre ajudando.

Tendo em mente estas breves alusões da diakonia na vida da Virgem Maria, podemos agora olhar com mais clareza sobre esta vocação e ordem na Igreja.

Diakonia é a palavra grega que define a função dos diáconos. Esta palavra significa serviço, e é de tanta importância para a Igreja, que se confere por um ato sacramental chamado “ordenação”, ou seja, pelo sacramento da Ordem.Os diáconos são homens casados ou celibatários que, chamados para seguir Jesus Cristo Servidor, recebem o Sacramento da Ordem do Diaconato para exercer o tríplice ministério: da Caridade, da Palavra e da Liturgia. No tríplice ministério já contemplamos a Virgem. Foi ela quem escutou e praticou a palavra do Senhor, foi ela quem partiu para ajudar quem necessitava, sonhou, gritou e suplicou por dias melhores em seu magnificat, e ainda se fez virgem oferente, fez de sua vida um serviço litúrgico em favor da humanidade, do nascimento à cruz.

No entanto, a doutrina católica estabelece que o grau de diaconato é um grau de serviço, estabelecido desde a época dos apóstolos, como testemunham os Atos dos Apóstolos e a Carta de São Paulo a Timóteo:

“Naqueles dias, como crescesse o número dos discípulos, houve queixas dos gregos contra os hebreus, porque as suas viúvas teriam sido negligenciadas na distribuição diária. Por isso, os Doze convocaram uma reunião dos discípulos e disseram: Não é razoável que abandonemos a palavra de Deus, para administrar. Portanto, irmãos, escolhei dentre vós sete homens de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria, aos quais encarregaremos este ofício. Nós atenderemos sem cessar à oração e ao ministério da palavra. Este parecer agradou a toda a reunião. Escolheram Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo” (At 6, 1-6)

“Os diáconos são, de forma muito privilegiada, sinais do Senhor Jesus que “não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mt. 20,28). Seu serviço será o testemunho evangélico em face de uma história em que a iniqüidade se faz cada vez mais presente e se esfria a caridade. A vocação diaconal está intimamente relacionada a seu dever de tornar-se memoria eficaz da mediação kenótica de Cristo.  Por meio de seuser eagir, elesecoloca na Igreja como sinal vivo do abaixamento.  Daquele que quis ser servo de toda a humanidade.

Mas qual é o serviço que os diáconos prestam à Igreja? O sacramento da Ordem marca-os com um selo (‘caráter’) que ninguém pode fazer desaparecer e que os configura com Cristo, que se fez ‘diácono’, isto é, o servo de todos. Entre outros serviços, pertence aos diáconos assistir o bispo e os sacerdotes na celebração dos divinos mistérios, sobretudo da Eucaristia, distribuí-la, assistir ao Matrimônio e abençoá-lo, batizar, proclamar o Evangelho e pregar, presidir aos funerais e consagrar-se aos diversos serviços da caridade.” (CIC 1570).

Entendido desta maneira, o diaconato não é somente um passo intermediário rumo ao sacerdócio, mas oferece à Igreja a possibilidade de contar com uma pessoa de grande ajuda para as tarefas pastorais e ministeriais.

A vocação diaconal não é um chamado, em primeiro lugar, a uma realização pessoal, satisfação deum sonho individual, ele é convocado antes de tudo, para ser na comunidade cristã o sinal da disponibilidade ao serviço.

Em seu carisma específico de ser promotor da caridade na comunidade e da comunidade, o diácono, em sua condição de sinal sacramental de Cristo Servo e da igreja servidora, contribui para que a comunidade cristã descubra sua diaconia como atitude permanente. Lembrando que na raiz da vida dos discípulos e discipulas de Jesus está sempre a ministerialidade, ou seja, a vocação para o serviço, o diácono leva a Igreja a perceber-se como assembleia dos convocados para servir. Sendo o diácono aquele que, por sua vocação, anima a diaconia dascomunidades, sua ausência pode dificultar a dilatação do espírito de serviço.

Cumpre ressaltar antes de mais nada: o diácono não é nem um superleigo e nem um subpadre, é ele mesmo com suas especificidades e a graça própria do sacramento da ordem recebido no seu grau, pois, se define pelo que é e não pelo que faz. Como toda vocação, o diaconato permanente também é um caminho de santificação individual, familiar e de toda Igreja. A missão que assumem após a ordenação, como continuação maior de sua anterior “diaconia”, inclue colaborar nas fronteiras pastorais e servindo onde nem sempre é possível aos padres e os bispos estarem. Conciliando sua importante vida de casado e pai, bem como de profissionais e cidadãos, recebem do bispo, missões canônicas de ser presença eclesial nos presídios, hospitais, asilos, casas de família, nas escolas (públicas e particulares) e universidades, no diálogo ecumênico e inter-religioso, em espaços e lugares de construção da cidadania e direitos, em especial em defesa dos pobres e sofredores de toda forma. O Diaconato que aqui se constroe, traz em seu cerne um forte resgate de seu papel caritativo, atravès da presença nas pastorais sociais.

Porém, não pode, ao contrário do sacerdote, celebrar o sacramento da Eucaristia (Missa), confessar nem administrar a unção dos enfermos.Com tudo o que ele pode fazer, sua ajuda é importantíssima, especialmente na época atual, na qual faltam tantas pessoas para ajudar os padres em suas tarefas.No entanto, há uma diferença muito importante entre diáconos e sacerdotes.Enquanto os sacerdotes ordenados da Igreja latina são geralmente escolhidos entre homens crentes que vivem como celibatários, ou seja, que não se casam e que têm o propósito de guardar o celibato pelo Reino dos Céus, os diáconos são casados.  Este, pela imposição dasmãos, não está apenas vinculado ao serviço do altar, mas, dada sua condição vocacional de homem casado, normalmente inserido no cotidiano da vida das pessoas, convivendo com os dramas dos seres humanos, tem mais possibilidade de exercitar de forma visível o ministério do serviço. Para evitar o empobrecimento do valor da vocação do diácono casado será necessário não confundir nem tonar o seu exercício parecido com o dos ministros celibatários. Por essa razão é preciso tomar muito cuidado para que sua responsabilidade ministerial não se restrinja a atividades meramente litúrgicas.

Diante do que foi dito, devemos concluir que a vocação do diácono casado deverá estar em perfeita harmonia com sua vocação matrimonial.  Aliás, uma vez que o casamento foi sua vocação primeira, e que ele não pode abrir mão de seu primeiro chamado, é necessário dizer que o exercício de seu ministério diaconal estará de certa forma subordinado aos deveres de seu lar, evitando que os trabalhos diaconais o afastem da necessária e obrigatória convivência com sua esposa e filhos.  Os pastores, bispos e padres, não podem esquecer que os diáconos casados são vocacionados tanto para o matrimônio como para o ministério ordenado.  Para o diácono casado, a família é o primeiro espaço de sua ação ministerial. Seu testemunho passa pela fidelidade às obrigações e aos compromissos assumidos pelo sacramento do matrimônio. Este diaconato permanente é um enriquecimento importante para a missão da Igreja e para o mundo.

“Quem é o meu próximo?”, perguntou um certo legista a Jesus (Jo. 10,29). O Senhor nos ensinou que o próximo é todo aquele que está perto de nós, no dia-a-dia de nossa vida.Para o diácono, esposo e pai, ninguém é mais próximo que sua família. A abertura para os outros começa na própria casa. O acolhimento não constitui apenas um ato humano; é também atitude evangelizadora. Para são Paulo, essa acolhida tem um nome: caridade. “A caridade tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (lCor. 13,8).

Na seqüência, o próximo a ser amado é o colega de profissão, a comunidade onde atua, a sociedade em geral. O diácono não terá medo de enfrentar os desafios. Ao contrário: as dificuldades indicarão em que direção o serviço diaconal deve caminhar. O diácono será, por excelência, homem de fronteira, capaz de inaugurar novas formas de serviço, a exemplo de Cristo. Terá um coração sem preconceitos; será um irmão universal.

O ministério do Diácono é voltado para o serviço à comunidade. A estola atravessada no peito mostra a horizontalidade de suas funções. É a toalha daquele que serve (Jo. 13,4).

Oremos para que o ministério diaconal de nossa Igreja, siga animado no serviço evangelizador, especialmente levando a fé, a solidariedade e a misericórdia à todos quanto dela necessitem, sendo “os olhos, a boca e o coração do bispo” e de cada cristão em favor dos irmãos.

Que nossa Padroeira seja o exemplo mais eloquente dos que são vocacionados a esta vocação tão singular na Igreja e que os nossos diáconos sejam como Maria, sempre atentos a servir e servir com amor. Amém.

Fr. José Leandro a. da Silva, O.C

Pregador do Novenário