O povo de Deus, que se constitui mediante o batismo, é consagrado. Essa consagração solidifica-se personalizando-se nas vocações específicas, como vimos estes dias. Como todas as formas da vida cristã, também a vida consagrada – dom de Deus – é uma vocação. Deus personaliza o chamado convidado a renascer (como no batismo) na vida consagrada. Sendo a vida consagrada uma vocação, isto é, um chamado,essa referência significa que a voz que convida provém de Deus.  Assim foi com Maria: a mensagem dirigida à jovem de Nazaré parte de Deus, é enviada por Deus. Assim, hoje, olhando para Maria, vejamos que seus exemplos se refletem na vida dos consagrados. Maria éguia e fonte de inspiração para todos os religiosos (as)é, de fato, exemplo sublime de perfeita consagração.Escolhida pelo Senhor, que n’Ela quis cumprir o mistério da Encarnação, lembra aos consagrados o primado da iniciativa de Deus. Unida a Cristo, a Virgem é mestra de seguimento incondicional e de assíduo serviço. Cristo é a razão dos consagrados. Devem levar uma existência me Cristo.

A vida religiosa é vida de consagração especial, por meio dos sinais sagrados dos Conselhos Evangélicos – votos de pobreza, castidade e obediência –  fazem consagração total de si mesmo a Deus. A consagração é ação divina, Deus chama a pessoa e a separa para dedicá-la a si mesmo de modo particular. A virgem de Nazaré, com sua resposta, consagrou-se totalmente a Deus. A virgindade, a obediência e a pobreza encontraram como programa de vida e como cumprimento, maravilhosa encarnação na serva humilde do Senhor e pobre de Javé, sempre obediente, sempre disponível, sempre aberta aos planos de Deus. Assimcomo Maria, por meios destes três votos, foi totalmente entregue a Deus, assim os consagrados entregam-se totalmente a ele. A castidade é sinal da entrega a Deus com um coração indiviso. A pobreza confessa que Deus é a única verdadeira riqueza do homem e a obediência deve ser praticada à imitação de Cristo cujo alimento era fazer a vontade do Pai. O que deve atrair nossos jovens para esta vocação é justamente uma vivência de uma castidade alegre, orientando seus afetos não nos caminhos das coisas mundanas, umapobreza solidaria e não apegados às riquezas e uma obediência ligada ao respeito ao homem.

Todos os filhos da Igreja, chamados pelo Pai a “escutar” Cristo, não podem deixar de sentir uma profunda exigência de conversão e de santidade. A Igreja sempre viu na profissão dos conselhos evangélicos um caminho privilegiado para a santidade. Não foi por acaso que, no decorrer dos séculos, tantos consagrados deixaram eloquentes testemunhos de santidade e realizaram façanhas de evangelização e de serviço. A vocação à santidade só pode ser acolhida e cultivada no silêncio repleto de presença adoradora: É preciso redescobrir também os meios ascéticos, eles foram, e continuam a sê-lo, um auxílio poderoso para um autêntico caminho de santidade. Um renovado empenho de santidade das pessoas consagradas é hoje mais necessário para suscitar em cada fiel um verdadeiro anseio de santidade, um forte desejo de conversão e renovamento pessoal.

As comunidades de vida consagrada são enviadas a anunciar, pelo testemunho da sua vida, o valor da fraternidade cristã e a força transformadora da Boa Nova, que faz reconhecer a todos como filhos de Deus e leva ao amor oblativo para com todos, especialmente para com os últimos. Estas comunidades são lugares de esperança e de descoberta das bem-aventuranças, lugares onde o amor, haurido na fonte da comunhão que é a oração, é chamado a tornar-se lógica de vida e fonte de alegria.

Quem ama a Deus, Pai de todos, não pode deixar de amar os seus semelhantes, nos quais reconhece igualmente seus irmãos e irmãs. Daqui nasce, por obediência ao mandato de Cristo, o ardor missionário ad gentes, que todo o cristão consciente partilha com a Igreja, missionária por natureza. É um ardor sentido sobretudo pelos membros dos Institutos, tanto de vida contemplativa como ativa. De fato, as pessoas consagradas têm o dever de tornar presente, mesmo entre os não cristãos, (PIME) Jesus Cristo casto, pobre, obediente, orante e missionário. Permanecendo dinamicamente fiéis ao próprio carisma, elas, por força da sua consagração mais íntima a Deus, não podem deixar de se sentirem comprometidas numa especial colaboração com a atividade missionária da Igreja. “O amor de Cristo nos impele” (2 Cor 5,14): os membros de cada Instituto deveriam poder repetir isto com o Apóstolo, porque é tarefa da vida consagrada trabalhar em todos os cantos da terra para consolidar e dilatar o Reino de Cristo, levando o anúncio do Evangelho a todo o lado, mesmo às regiões mais longínquas.

Ao início do seu ministério, na sinagoga de Nazaré, Jesus proclama que “o Espírito O consagrou para levar aos pobres uma boa nova, para anunciar a libertação aos cativos, devolver a vista aos cegos, libertar os oprimidos e proclamar um ano de graça do Senhor” (Lc 4,16-19). A opção pelos pobres inscreve-se na própria dinâmica do amor, vivido segundo Jesus Cristo. Assim estão obrigados a ela todos os seus discípulos; mas aqueles que querem seguir o Senhor mais de perto, imitando as suas atitudes, não podem deixar de se sentirem implicados de modo absolutamente particular em tal opção. A sinceridade da sua resposta ao amor de Cristo leva-os a viver como pobres e a abraçar a causa dos pobres. Na verdade, Cristo encontra-se, na terra, na pessoa dos seus pobres. Enquanto Deus, é rico; enquanto homem, pobre.Graças ao testemunho de inúmeras pessoas consagradas, aquela dedicação própria dos fundadores e fundadoras, que gastaram a sua vida a servir o Senhor, presente nos pobres.Apoiadas pela vivência deste testemunho, as pessoas consagradas poderão denunciar as injustiças que são perpetradas contra tantos filhos e filhas de Deus, e empenhar-se na promoção da justiça no ambiente social onde atuam.

Devido esta opção pelos pobres, injustiçados, os excluídos, pensamos em testemunho. E ao se falar em testemunho, devemos pensar na dimensão profética inerente à vida consagrada. A vida consagrada só será sinal quando for profética; quando for perseguida e quando tiver seus mártires. Somente quando tivermos pessoas consagradas, com a ousadia do profeta que não tem medo de arriscara a própria vida, teremos uma igreja fecunda e promissora. Só uma vida consagrada, comprometida até o sangue com a promoção da vida e da justiça, pode suscitar no coração de outras pessoas o desejo de uma entrega incondicional ao Senhor.  Não se pode negar que nos últimos anos houve um esfriamento da dimensão profética da vida consagrada. A Igreja deseja religiosos (as) que possam derrubar dos tronos os poderosos, elevar os humildes, encher de bens os famintos e despedir os ricos de mãos vazias”.

Seguindo uma gloriosa tradição, um grande número de pessoas consagradas, sobretudo mulheres, exercem o seu apostolado nos meios hospitalares. Ao longo dos séculos, muitas foram as pessoas consagradas que sacrificaram a sua vida ao serviço das vítimas de doenças contagiosas, mostrando que pertence à índole profética da vida consagrada a dedicação até ao heroísmo. Elas continuam o ministério de misericórdia de Cristo, que “passou (..) fazendo o bem e curando a todos”.

Não obstante a tudo isso que vimos e que deve está na vida e vocação dos consagrados, olhando para esta diocese, este ano vocacional a vós, jovens, digo: se sentirdes o chamamento do Senhor, não o recuseis! Entrai, antes, corajosamente nas grandes correntes de santidade, que foram iniciadas por santas e santos insignes no seguimento de Cristo. Cultivai os anseios típicos da vossa idade, mas aderi prontamente ao projeto de Deus sobre vós, se Ele vos convida a procurar a santidade na vida consagrada. Admirai todas as obras de Deus no mundo, mas sabei fixar o olhar sobre aquelas realidades que jamais terão ocaso.

Dirijo-me a vós, famílias cristãs. Vós, pais, dai graças a Deus, se Ele chamou algum dos vossos filhos à vida consagrada. Cultivai o desejo de dar ao Senhor algum dos vossos filhos para o crescimento do amor de Deus no mundo. Que fruto do amor conjugal poderia ser mais belo do que este? Importa recordar que, se os pais não vivem os valores evangélicos, dificilmente o jovem e a jovem poderão perceber o chamamento. De fato, é na família que os jovens fazem as primeiras experiências dos valores evangélicos, do amor que se dá a Deus e aos outros. Rezo por vós, famílias cristãs, para que, unidas ao Senhor pela oração e pela vida sacramental, sejais fecundos viveiros de vocações.

Mas é sobretudo a vós, mulheres e homens consagrados, que no final desta pregação dirijo o meu apelo confiante: vivei plenamente a vossa dedicação a Deus, para não deixar faltar a este mundo um raio da beleza divina que ilumine o caminho da existência humana. Os cristãos, imersos nas pelejas e preocupações deste mundo, têm necessidade de encontrar em vós um porto de esperança e segurança.

Vós sabeis em quem pusestes a vossa confiança (2 Tm 1,12): dai-Lhe tudo! Os jovens não se deixam enganar: quando vêm ter convosco, querem ver aquilo que não vêem em mais parte nenhuma. Tendes uma responsabilidade imensa no que diz respeito ao amanhã: especialmente os jovens consagrados, testemunhando a sua consagração, podem induzir os da sua idade à renovação da própria vida. O amor apaixonado por Jesus Cristo é uma atração poderosa sobre os outros jovens, que Ele, na sua bondade, chama a segui-Lo de perto e para sempre. Os nossos contemporâneos querem ver, nas pessoas consagradas, a alegria que brota do fato de estar com o Senhor.

Prece à Virgem Maria

Ó Maria, amparai as pessoas consagradas na busca da eterna e única Bem-aventurança. Confiamo-las a Vós, Virgem da Visitação, para que saibam correr ao encontro das necessidades humanas, para levarem ajuda, mas sobretudo para levarem Jesus. Ensinai-lhes a proclamar as maravilhas que o Senhor realiza no mundo, para que todos os povos glorifiquem o seu nome. Sustentai-as na sua ação em favor dos pobres, dos famintos, dos desesperados, dos últimos e de todos aqueles que procuram o vosso Filho com coração sincero.

A vós, Mãe, que quereis a renovação espiritual e apostólica dos vossos filhos e filhas na resposta de amor e dedicação total a Cristo, dirigimos confiantes a nossa oração. Vós que fizestes a vontade do Pai, pronta na obediência, corajosa na pobreza, acolhedora na virgindade fecunda, alcançai do vosso divino Filho que, quantos receberam o dom de O seguir na vida consagrada, saibam testemunhá-Lo com uma existência transfigurada, caminhando jubilosamente, com todos os outros irmãos e irmãs, para a pátria celeste e para a luz que não conhece ocaso.

Nós Vo-lo pedimos, para que, em todos e em tudo, seja glorificado, bendito e amado o Supremo Senhor de todas as coisas que é Pai, Filho e Espírito Santo.

Fr. José Leandro A. da Silva, O. C

Pregador do Novenário